OPINIÃO

A defasagem entre a ciência e a 
tecnologia nacionais 

Edgar Dutra Zanotto

A avaliação da produção científica e tecnológica nacional e do seu impacto vem ganhando crescente importância, não só no âmbito das agências de fomento, que necessitam quantificar os efeitos de sua atuação no sistema nacional de ciência e tecnologia e redirecioná-la em determinadas circunstâncias, como também entre o público e a mídia, que almejam conhecer quão bem aplicados têm sido os recursos públicos. Neste ensaio apresentamos uma estimativa de indicadores dessa produção e do seu impacto.

Produção Científica Nacional

Estima-se(1) que aproximadamente 70% dos artigos científicos nacionais são "enterrados" em anais de congressos e revistas não indexadas em bases de dados eletrônicas. É razoável supor que uma parcela desses artigos atinge padrões de qualidade e originalidade similares aos publicados em revistas indexadas, mas ainda não dispomos de meios para avaliá-los sistematicamente. Tal avaliação poderá ser efetuada por meio de sua futura indexação na base de dados Scielo, recentemente criada pela FAPESP e pela Biblioteca de Referência em Medicina para a América Latina e Caribe (Bireme).

A produção científica indexada pelo Institute of Scientific Information (ISI), de qualquer pesquisador, instituição ou até de um país, pode ser avaliada através de um banco de dados recentemente adquirido pela FAPESP e disponibilizado às instituições paulistas de ensino e pesquisa. Essa base, denominada Web-of-Science, contém aproximadamente 5.000periódicos de todas as áreas do conhecimento e permite a busca eletrônica por autor, instituição de origem, ano

da publicação, citação, palavras-chave, estado, país, etc. Portanto, é possível levantar a produção científica nacional e internacional de todos os pesquisadores de ciências exatas. Dessa forma, construímos a Figura 1.

O crescimento da participação nacional nas ciências exatas é claramente demonstrado pela Figura 1. Em 1998, autores vinculados a instituições brasileiras contribuíram com 1,07% da produção científica mundial indexada pelo ISI. Em relação à produção científica norte-americana, esse percentual é de 2,9%. Nota-se que crescimento da produção científica brasileira tem sido supe-rior ao do PIB.

Produção Tecnológica Brasileira 

Dados da UNESCO indicam que entre 65 e 75% dos investimentos de pesquisa na Europa, EUA e Japão são efetuados por empresas, enquanto no Brasil assume-se que apenas 30% desses investimentos têm origem 

empresarial; entretanto, estimativas mais realistas indicam que esse percentual é significativamente menor que 30%!

Supondo que cada patente depositada seja uma aposta do pesquisador ou empresa no potencial de inovação (geração de produto comercializável) do seu invento, uma forma indireta de se avaliar a geração de tecnologia num país é contabilizar os pedidos de patentes depositados e concedidos. 
A título de informação, estima-se que apenas 10% das patentes depositadas nos EUA são concedidas e que 10% delas geram inovação. Portanto, construímos a Figura 2 para representar a evolução da participação brasileira no total



de patentes concedidas nos EUA entre 1980 e 1998. Neste caso, a fonte de informação foi a "home-page" da USPTO— United States Patent & Trademark Office.
 
  Brasil Mundo % Brail
Artigos em revistas indexadas pelo ISI 47.184 7.756.888 0,61
Patentes registradas nos EUA  751 2.198.190 0,04

Tabela I. Participação brasileira no número de artigos em revistas indexadas pelo ISI e no número de patentes registradas nos EUA entre 1980 e 1993. (Fonte: Brito Cruz [2])

A Figura 2 mostra que o número de patentes concedidas nos EUA a autores brasileiros atualmente atinge cerca de 0,055% do total de patentes concedidas naquele país a autores de qualquer nacionalidade, e não tem crescido nesta década. 

Deve-se enfatizar que esse percentual é similar ao de inventores irlandeses e mexicanos, mas é significativamente inferior ao deautores de países em estágio de desenvolvimento científico comparável ao do Brasil, tais como África do Sul, Israel e Coréia.

Adicionalmente, em detalhado relatório, Brito Cruz [2] calcula a

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Figura 1. Percentual de artigos publicados em periódicos indexados pelo ISI por autores vinculados a instituições nacionais, nos últimos 20 anos. (Fonte: webofscience.fapesp.br). A curva foi colocada para guiar os olhos.
relação entre a participação de artigos de pesquisadores de um país no total de artigos publicados em revistas indexadas pelo ISI e a participação de patentes concedidas a autores desse país no total das patentes registradas nos EUA. No caso dos países desenvolvidos, a relação entre os percentuais de participação varia entre 0,5 e 3,0. Já ano caso do Brasil, a relação é aproximadamente 20. A Tabela I mostra o percentual da participação brasileira no total de artigos em revistas
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